Desmistificando os Jogos de Interpretação de Papeis (RPG)

Saudações aventureiros!

Estamos atualmente em anos de conhecimento (mesmo com tanto obscurantismo querendo voltar). Vivemos em uma era que, em apenas alguns cliques em um computador ou smartphone, temos acesso a informação que queremos. Mas mesmo em épocas como esta, ainda tem sim muita desinformação propagada em rodas de amigos, templos religiosos, ou até núcleos familiares. Isso acontece com qualquer tipo de informação. Isso acontece com o RPG.

Esse artigo vem trazer um pouco de luz no assunto RPG. Mostre esse artigo para aquele parente que diz que o “RPG é coisa demoníaca” ou o “RPG deixa as pessoas loucas“, e principalmente que o “RPG é uma perda de tempo“.

O QUE É RPG?

A sigla RPG vem de Role-Playing Game, ou Jogos de Interpretação de Papeis. É um jogo de contar histórias das mais diversas, onde amigos se reúnem para criar personagens e desafiá-los a sobreviverem em múltiplos universos imaginários. Quando falamos “RPG”, ligamos aos seguintes itens:

  1. Um sistema de regras: normalmente um livro ou vários, no qual possibilitam certas delimitações ao contar a história e ao transcrever ações imaginárias.
  2. Um grupo de jogadores: normalmente um jogador – chamado normalmente de Narrador, Mestre do Jogo (ou qualquer outra denominação dada pelo sistema) – que assume o papel de criar o cenário onde os personagens, controlados pelos outros jogadores.
  3. Jogar! O ato de contar uma história para os jogadores, inspirados e delimitados pelas regras.

gruporpgO RPG foi criado como uma evolução natural de jogos de guerra (wargames) na década de 1970. O primeiro RPG criado foi o Dungeons and Dragons, em 1974, no qual inspirou centenas de outros RPGs pelo mundo. Hoje, o mercado de RPG está gigante como nunca, com muitos sistemas de RPG, e não só presos ao formato mesa (ou Tabletop como é conhecido lá fora), mas em outros formatos, no qual coloco aqui alguns exemplos:

  • Tabletop RPG, ou TTRPG: é o RPG tradicional, onde os jogadores se reúnem normalmente em uma roda de amigos (mesa) para jogar. Hoje, com o advento da tecnologia da informação, existem aplicativos e sites que quebram essa barreira física, e partem para o virtual.
  • Live Action Roleplay, ou LARP: é uma evolução ao RPG tradicional, onde os jogadores se caracterizam com seus personagens. Em um LARP, as regras são mais restritas, e todo um aparato logístico é feito para que os jogadores respeitem as regras e a cena. Esse tipo de modalidade de RPG é muito jogado na Europa (em sua versões medievais) e nos EUA (em sua versões mais adultas, como monstros)
  • Massive Multiplayer Online RPG, ou MMORPG: ao contrário do RPG tradicional, os MMOs (como são conhecidos) são jogos de computadores/videogames no qual os jogadores interagem, seja interpretando ou não. Por causa dos MMOs que o termo RPG se popularizou.
  • RPGs de Computador: antes dos MMOs, já existiam jogos de videogame e de computador que emulavam/simulavam RPGs. Mas eram restritos a somente um jogador, e tinham poucas opções de interação entres personagens, em sua maioria, controlados pelo jogo.
  • Livros-Jogos ou Aventuras-Solo: livros que emulam jogos de RPG, mas também de utilização de um único jogador. Esses livros colocam opções para o leitor seguir e fazer a história. Ele não funciona lendo linearmente, mas sim, quando lido uma página, escolhe-se uma opção a seguir, e vai até a página indicada.

Ou seja, quando falamos “RPG”, podemos estar tratando de suas diferentes vertentes, mas todas convergem para um único objetivo: diversão sadia, educativa e social.

DIVERSÃO SADIA, EDUCATIVA E SOCIAL?

O RPG é uma forma de entretenimento mais saudável existente, pois além de proporcionar sociabilidade entre jogadores, também estimula a educação e o interesse pela busca de conhecimento.

Mas como isso ocorre com um simples jogo? 

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Grupo “Libertadores de Phandelver” – Atual campanha dos Cavaleiros das Noites Insones

RPG não é um simples jogo, onde os jogadores disputam para ver quem vence. RPG é trabalhar em equipe para alcançar objetivos em comum. Trata-se de usar a imaginação para desvendar enigmas, simular disputas sociais e ações, e tentar prever reações comuns. Se você está com um personagem que é um detetive, e está procurando um facínora, é claro que você tem que ter o mínimo de conhecimento de como agir, e se não sabe, procura buscar isso pesquisando. O jogador de RPG é um pesquisador nato, pois ele procura em livros, filmes, internet… o que precisa saber para dar cor e vida ao seu personagem. Não basta dizer que seu personagem é um detetive, se ele não vai ter embasamento para tal. Ler é uma obrigação para qualquer jogador de RPG.

Mas antes que fique confuso, não é que o jogador está interpretando um personagem detetive que ele vai sair por aí, na vida real, desvendando crimes! RPG é um jogo de imaginação, e no campo da imaginação ele fica restrito. Mesmo em suas versões LARP, o campo da imaginação ainda é o diferencial. Não é a toa que, para quem não jogou RPG, e observa um grupo jogando, não consegue entender as risadas, as falas, e as jogadas de dados.

Quando falamos também em educação, falamos que o RPG é um excelente instrumento para a imersão de alunos ao conteúdo. Hoje em dia, muitos educadores estão utilizando o RPG para ensinar, pois com o jogo conseguem a atenção que a educação tradicional não consegue. Com jogos lúdicos e imersivos em sala de aula, professores estão conseguindo excelentes resultados.

Claro que empresas também utilizam do RPG para treinamento de funcionários, integração entre gestores, e dinamismo ao passar informações sobre a empresa e suas práticas. O jogo de contar histórias está alcançando até espaços que normalmente não se imaginaria.

QUAIS SÃO OS MALEFÍCIOS DO RPG?

Antes de qualquer adendo, o RPG não possui nenhum malefício ligado ao jogo em si. RPG é um jogo que lida com imaginação, conhecimento, pesquisa e desenvolvimento de histórias. Se você achar que existe algo que faça mal nesses atributos, você também acharia mal o ato de contar histórias, de se reunir com os amigos, ou se divertir.

Muitos acham que o RPG lida com práticas condenáveis, ou até mesmo que instrua algo maligno aos seus jogadores. Por se tratar de um jogo que lida com imaginação, o espectro da mente humana é mais complexo do que uma simples leitura. Como existem pessoas que podem enlouquecer lendo um livro como a Bíblia ou o Alcorão, por exemplo, certos assuntos mais sensíveis podem afetar a pessoas igualmente sensíveis. Nesse caso, cabe saber em qual campo de jogo os jogadores estão jogando.

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Site do Ministério da Justiça (clique na imagem)

Existem vários cenários, para vários tipos de jogadores diferentes. Vários sistemas diferentes, dos mais infantis aos mais adultos, e como todo entretenimento, a cautela deve ser mantida. Em uma roda de jogadores pequenos, por exemplo, não se deve ser levado jogos mais adultos, como também no caso de jogadores mais experientes, certos temas são sensíveis e devem ser sondados antecipadamente. Esse trabalho normalmente é feito pelo Narrador/Mestre do Jogo. Como existem filmes que não são para todas as plateias, também existem RPG que não são para todas as mesas.

Para quem está de fora, o bom é perguntar qual o tema no qual o RPG está sendo trabalhado. Existem vários temas para vários públicos: fantasia, história, super-heróis, ficção, terror, comédia… Como em livros convencionais, os jogadores podem escolher o tema como se escolhe um livro na biblioteca para ler. É claro, nem todos os livros são para todos os públicosessa frase tem que ser repetida sempre – como também não é saudável querer empurrar um tema que vá de contra aos ideais de alguns jogadores.

Todos os RPGs publicados hoje em dia no Brasil apresentam a classificação indicativa estampada na capa. Existem jogos de classificação das mais diversas, desde de censura livre, até censura 18.

UM AVISO AOS PAIS

Como pais, estamos o tempo todo preocupados com a educação dos nossos filhos. Estamos preocupados em saber com quem eles andam, o que fazem, e tentamos o tempo todos fazer com que eles não cometam erros que nós cometemos, bem como temos medo de coisas que eles façam que nós não façamos. Isso é normal. O RPG foi muito perseguido nas décadas passadas pois os pais daquela época não entendiam e não tinham acesso  ao conhecimento que nós, pais dessa época, temos. Como pais responsáveis, temos sim que sondar o que ocorre com nossos filhos, mas temos mais ainda o dever moral de conhecer. Conversar com seu filho é essencial, saber o que ele quer e o que procura, sem se transformar em um oponente para ele. Nós como pais temos que andar lado a lado com nossos filhos, e não colocando ele para baixo.

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Cena do seriado “Stranger Things” da Netflix

Se você como pai está desconfiado do que é RPG, a internet está aí. Escrevi esse artigo para elucidar um pouco mais sobre esse jogo fantástico que jogo há quase 30 anos, e que meus filhos também jogarão. E cá entre nós: prefiro muito mais meu filho em uma roda de amigos jogando RPG do que em uma roda de “amigos” utilizando drogas…

RPG é uma diversão sadia, no qual desenvolve caráter, aprimora assuntos acadêmicos como história e matemática, e quebra barreiras sociais, fazendo com que seu filho seja mais carismático e sociável. RPG não modela para o mal, somente para o bem.

Esse artigo foi feito para sanar dúvidas de um amigo.

E vamos rolar dados!

 

Arte de capa: Explorers of a new district BY NCORVA


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